Fonte: Gazeta Digital, créditos da imagem: Acervo Pessoal
Em meio à popularização dos procedimentos estéticos e à crescente influência das redes sociais sobre os padrões de beleza, a busca por resultados naturais tem ganhado espaço nos consultórios. Para a cirurgiã-dentista Fernanda Rodrigues Cautela do Lago, de 43 anos, conhecida como Dra. Fê Cautela, a estética deve respeitar a individualidade de cada rosto, sem transformar tendências em regras.
Natural de Santo André (SP) e radicada em Cuiabá há quase quatro anos, a profissional construiu sua trajetória entre a Odontologia, a docência e a Harmonização Orofacial. Em entrevista ao GD ela relembra a infância humilde, conta como encontrou na estética uma nova direção profissional e discute os limites dos procedimentos, os riscos da cultura do exagero e a responsabilidade dos profissionais diante de pacientes que buscam mudanças na aparência.
Gazeta Digital – Para começarmos, conte um pouco sobre você: qual é seu nome completo, sua idade, onde nasceu e como foi sua formação?
Dra. Fernanda Cautela – Meu nome é Fernanda Rodrigues Cautela do Lago, tenho 43 anos e sou conhecida carinhosamente pelos meus pacientes como Dra. Fê Cautela. Nasci em Santo André, no estado de São Paulo, e cresci em Itanhaém, no litoral paulista, onde fiz meus estudos até o ensino médio. Minha graduação em Odontologia foi em Santos, também no litoral de São Paulo, pela Universidade Santa Cecília, onde me formei em 2010.
Gazeta Digital – Sua trajetória na Odontologia começou com um sonho de infância. Como foi transformar esse desejo em profissão e, posteriormente, descobrir sua vocação para a estética facial?
Dra. Fernanda Cautela – Minha trajetória na Odontologia começou com um sonho, na verdade, começou quando aprendi a acreditar que era possível sonhar. Desde criança, meus olhos brilhavam quando eu via na televisão um cirurgião-dentista atendendo em seu consultório, já existia no meu coração aquele desejo de estar ali um dia, mas era algo que parecia muito distante da minha realidade.
Venho de uma família muito simples, filha caçula da dona Luzinete, viúva, mãe de 5 filhos que não teve oportunidade de estudar e trabalhou a vida inteira como faxineira, mas ela me ensinou algo que foi fundamental para eu chegar até aqui: acreditar em mim mesma. Acreditar que eu podia sonhar, buscar, ir atrás e principalmente que eu era capaz!
Em 2010, me formei em Odontologia na cidade de Santos, no litoral de São Paulo, e atuei meus primeiros anos no estado, minha primeira pós-graduação foi em Ortodontia. Depois, segui também pela vida acadêmica, atuei como professora de pós-graduação e fiz mestrado em Prótese.
O interesse pela estética veio do meu olhar para os próprios pacientes, sempre ao finalizar os casos de Ortodontia, eu ficava feliz com a transformação do sorriso, mas sentia que poderia buscar um pouco mais de refinamento, olhando para o rosto como um todo e foi essa inquietação que me levou à Harmonização Orofacial.
E eu costumo dizer que foi um caminho sem volta. A cada curso, a cada contato com a área, eu ficava mais curiosa, com mais vontade de aprender e mais apaixonada pelas possibilidades de cuidado.
Gazeta Digital – A mudança para Cuiabá também marcou uma transformação na sua carreira. O que motivou a decisão de se dedicar à harmonização orofacial e aos procedimentos estéticos, como o preenchimento labial?
Dra. Fernanda Cautela – Essa decisão se consolidou quando me mudei para Cuiabá, há quase quatro anos. Mudar de estado significava também um novo começo na minha vida profissional. Eu estava chegando a um lugar onde as pessoas ainda não me conheciam e precisaria construir minha trajetória ali.
Então pensei: já que vou recomeçar, quero dedicar essa nova fase à área pela qual eu estava cada vez mais apaixonada. Foi quando decidi direcionar minha atuação para a estética e a Harmonização Orofacial.
Mas essa decisão veio acompanhada de muita preparação. Investi na estrutura física do consultório, busquei mais conhecimento, fiz novos cursos e fui me preparando para oferecer o cuidado que eu queria entregar aos meus pacientes.
Foi também nessa nova etapa que fundei o Start HOF, um curso voltado para profissionais da saúde que desejam iniciar na harmonização. Ele nasceu da vontade de compartilhar o que aprendi e oferecer uma orientação que eu gostaria de ter recebido quando comecei. Costumo dizer que é um atalho para as dificuldades que encontrei no início da minha carreira, ajudando outros profissionais a começarem com mais clareza, segurança e responsabilidade.
Gazeta Digital – Nos últimos anos, os procedimentos estéticos se popularizaram, impulsionados principalmente pelas redes sociais. Como você avalia essa transformação e o comportamento dos pacientes que chegam aos consultórios?
Dra. Fernanda Cautela – Na minha percepção, a estética passou a fazer parte das conversas e da vida de muito mais pessoas, os pacientes chegam com mais referências, conhecendo nomes de procedimentos e, muitas vezes, já com uma ideia do que querem fazer. As redes sociais têm uma influência muito grande nisso.
Ao mesmo tempo, conhecer um procedimento não significa saber se ele é indicado para você, na consulta, eu preciso entender o que está por trás daquele desejo e avaliar se o que a pessoa está buscando realmente pode trazer um benefício para ela.
Para mim, um dos maiores desafios desse cenário é saber dizer não. Não ao exagero, não à falta de indicação. Temos mais possibilidades de tratamento, mas precisamos ter critério para escolher quando utilizá-las e reconhecer a hora de parar.
Eu valorizo muito ouvir o paciente, mas sei que a responsabilidade de indicar e conduzir o tratamento é minha. Às vezes, o melhor cuidado que posso oferecer é explicar, com carinho e clareza, por que não recomendo determinado procedimento.
Gazeta Digital – Em um mercado que durante muito tempo valorizou transformações marcantes, você defende resultados mais sutis e naturais. Por que escolheu seguir esse caminho e qual é, para você, o verdadeiro objetivo de um procedimento estético?
Dra. Fernanda Cautela – Eu nunca gostei da ideia de que, para ser bonita, uma pessoa precisa seguir um padrão. Sempre tive dificuldade em olhar para rostos tão diferentes e pensar que todos deveriam ter os mesmos lábios, o mesmo nariz ou o mesmo formato.
Por isso, priorizar a naturalidade foi algo muito pessoal, que se refletiu na minha maneira de trabalhar. Antes de pensar em qualquer procedimento, eu gosto de olhar para aquela pessoa e perceber o que faz parte da beleza dela, o que dá identidade ao seu rosto.
Quero que meus pacientes se sintam mais bonitos e confiantes, preservando aquilo que os torna únicos. Para mim, um resultado bonito é aquele que faz sentido naquele rosto e que permite à pessoa se olhar no espelho e continuar se reconhecendo.
É isso que orienta meu trabalho: valorizar cada pessoa, respeitando suas características, sem fazer de uma tendência o objetivo do tratamento.
Gazeta Digital – A chamada cultura do exagero estético tem provocado discussões sobre autoestima, padrões de beleza e riscos à saúde. O que mais preocupa você nesse comportamento e quais consequências ele pode trazer?
Dra. Fernanda Cautela – Sem sombra de dúvida, o que mais me preocupa é a influência das redes sociais. Nós estamos o tempo todo expostos a imagens, filtros e tendências, e isso pode mudar a forma como enxergamos a nossa própria aparência. Às vezes, uma característica que nunca incomodou passa a ser um problema porque a pessoa começa a se comparar com aquilo que vê na tela.
Me preocupa quando essa comparação faz alguém sentir que precisa mudar para ser bonito, aceito ou se sentir suficiente. E, nessa busca, a saúde pode acabar ficando em segundo plano. O desejo de acompanhar uma tendência ou alcançar determinado resultado passa a pesar mais do que os riscos e os limites do próprio corpo.
Uma coisa que sempre penso é que as tendências mudam, mas as consequências de um procedimento podem permanecer. Aquilo que hoje é muito desejado pode deixar de ser amanhã, e nem tudo é simples de reverter.
Por isso, acredito muito na nossa responsabilidade como profissionais. Precisamos acolher esse desejo, mas também conversar com sinceridade sobre o que está motivando aquela escolha. Eu quero que o paciente tome uma decisão consciente, com expectativas reais e entendendo que a saúde dele precisa estar acima de qualquer tendência.
Gazeta Digital – Diante de tantos padrões de beleza impostos pelas redes sociais, como identificar quando um procedimento realmente valoriza as características de uma pessoa e quando ele apenas reproduz uma pressão estética? Em que momento o profissional precisa estabelecer limites?
Dra. Fernanda Cautela – Para mim, esse cuidado começa com uma escuta atenta. Esse é um dos pilares do meu trabalho. Gosto de dedicar atenção à consulta, de ouvir o que incomoda o paciente, o que ele espera mudar e o que aquela mudança significa para ele.
Essa conversa me ajuda a compreender se estamos diante de um desejo que pode ser atendido com um tratamento ou de uma expectativa que o procedimento não vai conseguir alcançar. Às vezes, a pessoa chega pedindo uma mudança, mas, quando nós conversamos, percebemos que existe uma comparação ou uma cobrança por trás daquele pedido.
Também existem pacientes que têm dificuldade de perceber os próprios resultados e continuam buscando mais. Nessas situações, a escuta precisa vir acompanhada de uma orientação muito clara e responsável. Acolher o paciente também envolve reconhecer quando precisamos estabelecer um limite.
Eu quero que ele se sinta ouvido e respeitado, inclusive quando a minha orientação é não realizar um procedimento. Para mim, valorizar a beleza natural passa por essa atenção à pessoa, pelo respeito à sua individualidade e pela responsabilidade de indicar somente aquilo que faz sentido para ela.

